Na encruzilhada: o poder do mundo ou a essência do humano?
O poder nunca deixou de se organizar em torno de três eixos: território, recursos e narrativa. O que muda é o grau de abstração com que esses eixos se apresentam. A grande disputa da nossa era é a definição do próprio ser humano, não apenas o domínio geopolítico... Neste contexto, a soberania deixa de ser ética ou cultural para ser apenas logística...
Da soberania política à soberania geográfica
A soberania já não se funda na vontade dos povos (o que continua a constituir um mito moderno), mas na utilidade estratégica dos territórios...
O fim da era das nações: o humano como variável secundária
A passagem da “era das nações” para a “era das potências geopolíticas” implica algo mais profundo que está a acarretar o colapso do sujeito político moderno....
O que verdadeiramente marca a nossa época com um carácter fatídico é o trabalho conjugado, tão eficiente quanto insidioso, do capitalismo liberal e das ideologias progressistas na desconstrução do humano, da cultura e das instituições...
Assim, a nação, enquanto comunidade histórica de sentido é declarada inconveniente; a cultura, enquanto memória viva, é considerada ruído; a identidade, enquanto raiz, é um obstáculo à mobilidade do capital e do poder...
A pessoa é definida pela sua funcionalidade, pelo que poderá ser útil e não pelo que é.
A Ucrânia está a funcionar como arquétipo sacrificial
Se observamos a História e o desenvolver do poder desde a ordem tribal à ordem imperial constata-se que toda a grande ordem imperial nasce de um sacrifício periférico...
A Ucrânia não é uma exceção da realidade geopolítica que temos, mas mais um símbolo da irrelevância do direito, da hierarquia real entre vidas e da subordinação do humano à área do poder funcional e imediato....
Aqui, a “teologia” política torna-se clara: o deus da nova ordem é a estabilidade do sistema, e os seus holocaustos são povos inteiros....
ONG, gangues e a tribalização do mundo
Estamos a entrar numa fase neotribal, mas sem transcendência.
As ONG transnacionais, financiadas por Estados e ideologias, funcionam como braços morais do poder, como instrumentos de pressão sem responsabilidade democrática e como substitutos da política clássica...
Em última análise a crise não é política, é antropológica
No fundo, o que se decide não é quem domina o mundo, mas o que é o ser humano. E o novo sistema quer reduzi-lo a mera função, só número e flexível.
A consequência é que para o indivíduo a única hipótese de visibilidade passa pela formação de grupos...
Para além deste alerta resta a tarefa da consciência
A Nova Ordem Mundial é inevitável como estrutura, mas não é inevitável como
destino espiritual.
A verdadeira resistência já fora da nossa matriz máscula não será militar nem
ideológica, mas cultural, ética e espiritual...
A jeito de conclusão
Estamos numa encruzilhada, mas não apenas geopolítica. É uma encruzilhada civilizacional e espiritual.
Ou o mundo aceita a soberania da geografia acompanhada pela ditadura da economia e reduz o ser humano a mero meio ou reencontra a centralidade da pessoa, a políticao como ética aplicada e a consciência humana como verdadeiro poder!...
A questão seguinte será sobre quem ainda poderá falar ao humano enquanto humano, sem o reduzir a função, massa ou rebanho.
António da
Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo social
Artigo completo em Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=10585

